p-ádicos — Parte 1: números que vão pra esquerda
Esse é o primeiro de uma série de posts sobre os números p-ádicos. A ideia surgiu enquanto eu estudava clustering hierárquico e ultramétricas para alguns problemas de dados — em algum momento o caminho cruza inevitavelmente com os p-ádicos, e eu sempre tinha esse tópico na cabeça como “algo bonito que eu queria entender direito um dia”. Esse é o “dia”.
A trilha completa — oito posts e seis brincadeiras interativas — vive em p-adics.lucas.mat.br. As brincadeiras ficam todas lá (são pequenas demos em JavaScript), e os textos saem aqui no blog, um por vez. Se você quiser pular direto para a animação que acompanha esse post, ela está em a mesma série em dois universos.
Vamos por uma porta que parece um truque de mágica.
Um mistério mecânico
Na aritmética que aprendemos na escola, os “vai um” se propagam para a esquerda. Considere a conta:
Cada coluna faz : escreve 0, leva 1 para a próxima coluna. O “vai um” continua rolando para a esquerda e nunca chega num fim — não há um fim. O resultado é uma cauda infinita de zeros, que mecanicamente é 0.
Mas se aceitamos a igualdade , somos forçados a concluir:
A mesma brincadeira funciona em base 2:
E aí mora um detalhe gostoso: a sequência em base 2 é literalmente a soma . Ou seja, estamos olhando para um lugar onde aquela série geométrica que “diverge para ” no sentido usual, na verdade converge — para .
Não é um truque de notação. É a regra de jogo de outra geometria que mora exatamente sobre os mesmos números racionais.
Strings infinitas pela esquerda como um anel
Fixe uma base (por enquanto sem exigir que seja prima). Defina o conjunto
Cada elemento é uma string infinita de dígitos que se estende para a esquerda. Somamos e multiplicamos elemento a elemento pelo algoritmo da escola — propagando carries para a esquerda. Está tudo bem definido: cada dígito do resultado depende só dos dígitos e de entrada. A aritmética é local: para saber um dígito da resposta, basta olhar um pedaço finito da entrada.
Uma outra forma de ver o mesmo objeto, mais limpa para quem prefere álgebra: um inteiro -ádico é a mesma coisa que um sistema compatível de restos. Defina como o número formado pelos dígitos mais à direita, lido em base . Então , e cada string corresponde a uma única sequência desses restos. Formalmente,
Esse limite inverso é a definição que aparece nos livros, e vale a pena carregar mentalmente: um inteiro p-ádico é “uma forma coerente de conhecer um número módulo cada potência de ”.
Algumas contas concretas
Algumas expansões na base 10:
- .
- (verifica: ).
- .
Em base 3: . Em base 7: . Em qualquer base , a string é igual a , porque gera exatamente o carry eterno.
Racionais também aparecem: em
Queremos com em . Resolvemos módulo subindo e vamos lendo os dígitos:
| equação | solução | dígito | |
|---|---|---|---|
| 1 | |||
| 2 | |||
| 3 | |||
| 4 |
O padrão é claro: em .
Confere fazendo a conta: , que é .
Coincidência bonita: em
Aplicando o mesmo procedimento ao :
O mesmo bloco 142857 que aparece na expansão decimal real reaparece aqui, espelhado e deslocado para a esquerda. A razão é simples: , então em temos , logo , e . O período da dízima decimal e o período da expansão 10-ádica são o mesmo fato aritmético visto por dois lados.
Quais racionais funcionam?
Qualquer com tem representação em . Em compensação, e não estão em — eles estarão na completação , mas isso é assunto do próximo post.
Por que a base precisa ser prima: o bug do 10
Se é tão simpático, por que todo livro insiste em base prima? Tem um bug.
Afirmação. Existem , ambos não nulos, com .
A construção é direta: vamos achar um idempotente tal que . Daí com ambos fatores não nulos.
Sobe-se passo a passo. Queremos para todo .
| restrição | dígito | ||
|---|---|---|---|
| 1 | , | 5 | |
| 2 | levantamento p/ mod 100 | 25 | |
| 3 | levantamento p/ mod 1000 | 625 | |
| 4 | levantamento p/ mod 10000 | 0625 | |
| 5 | levantamento p/ mod 100000 | 90625 |
E continua para sempre. Os dois idempotentes não triviais em são
Verifique na ponta do lápis se quiser: , cujos últimos cinco dígitos são . O idempotente sobrevive sob elevação ao quadrado.
E aí vem o golpe: , com e ambos não nulos (terminam em 5 e em 6).
Verifique módulo : , cujos últimos cinco dígitos são . Isso é o que ” em ” significa concretamente.
Por que isso acontece em base 10 e não em base prima
A resposta limpa: Teorema Chinês dos Restos. Como se fatora em dois primos distintos,
Ou seja, é literalmente um produto de dois anéis. E todo produto tem idempotentes não triviais — os elementos e — que são não nulos mas se multiplicam em zero. O idempotente corresponde a em : é “zero como 2-ádico, mas como 5-ádico”.
Quando a base é um primo , esse produto degenera num único fator e o problema desaparece. é um domínio (de fato um anel de valoração discreta, mas esse vocabulário a gente pega depois). Base prima = sem fatoração via TCR = sem zero divisores = espaço limpo pra fazer análise.
A partir daqui fixamos um primo e escrevemos .
A geometria que cai do colo: o valor absoluto p-ádico
Agora que temos , olhamos pra ele e perguntamos: quais elementos parecem “pequenos”?
Um inteiro p-ádico é divisível por exatamente quando seus primeiros dígitos (à direita) são zero. Definimos a valoração p-ádica:
“Pequeno” deve significar “divisível por uma potência alta de ”, então:
A base no expoente é convencional, mas tem motivo: ela faz valer (porque ).
Concretamente:
- — o próprio é pequeno.
- — potências altas de são muito pequenas.
- , para qualquer unidade (i.e., ).
- — e essa é a primeira pista de que precisamos de , não só , pra ter definido num corpo.
A propriedade essencial — a que torna toda a geometria p-ádica esquisita e arborescente — é a desigualdade triangular forte:
Isso é mais forte que . A demonstração é direta: o primeiro dígito não nulo da soma está pelo menos tão à esquerda quanto o primeiro de cada parcela.
As consequências dessa desigualdade são absurdas (todo triângulo é isóceles, todo ponto de uma bola é centro, o espaço é totalmente desconexo) — e vão ser o assunto do post 03.
A virada: o teorema de Ostrowski
A gente construiu uma nova forma de medir tamanho em : , uma para cada primo . Junto com (a do colégio), existem outras? Escondidas, patológicas, “valores absolutos” estranhos?
Teorema de Ostrowski (1916). Todo valor absoluto não-trivial em é equivalente a ou a para algum primo .
Pronto, a história está fechada. Os únicos jeitos de medir tamanho em , a menos de equivalência, são o real comum e um por primo. Os não são objetos exóticos — eles são exatamente metade de todas as noções possíveis de tamanho nos racionais.
(Equivalência aqui significa para algum ; dois valores absolutos equivalentes definem a mesma topologia, as mesmas sequências de Cauchy, e portanto a mesma completação.)
A demonstração tem umas duas páginas e cabe num bom exercício de cabeça. Vou deixar pro estudo aprofundado — não cabe num post de introdução.
A foto que isso prepara
O próximo post completa em relação a cada um desses valores absolutos:
- Completando com a gente obtém .
- Completando com a gente obtém .
Ou seja, não tem uma completação — tem uma infinidade contável delas, indexadas pelos primos mais "". Essa é a foto adélica, e ela é a razão pela qual a teoria dos números trata primos e em pé de igualdade.
Pra continuar
A brincadeira interativa que acompanha esse post está em a mesma série em dois universos. Ela mostra exatamente o que esse post argumenta no parágrafo do início: marchando para na reta real e, ao mesmo tempo, convergindo para na vizinhança 2-ádica — com troca de primo para você ver que o fenômeno é geral.
No próximo post (parte 2) a gente faz o salto formal: sequências de Cauchy em , série geométrica como bom comportamento, e como bola unitária fechada — completando pelo outro lado.
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